terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tanto se me dá

Tanto se me dá. Se chove ou faz sol, se está calor ou frio, tanto se me dá. Tanto se me dá se é tarde ou cedo, doce ou amargo, se entro ou saio, tanto se me dá. Tanto se me dá a música, o silêncio, o vazio ou a insónia, a lágrima ou o riso, o almoço e o jantar. Tanto se me dá. A escrita e a leitura, o trabalho ou o descanso, a TV ou o rádio, o fim ou o princípio. Tanto se me dá.
A vida, tanto se me dá.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Abraço-te

Hoje seria o teu aniversário se ainda estivesses connosco. Não quero esquecer-me nunca, enquanto viver, do dia em que fazias anos. Estavas sempre feliz neste dia... tão feliz! Dizias que a estrada estava a ficar cada vez mais pequenina mas que enquanto caminhasses, seria com sorrisos. E abraçavas-me muito. Tenho tantas saudades do teu abraço... Até dói, sabes? Acho que não há um dia em que não me lembre de ti, e já se passaram tantos anos... Tenho que fazer contas... Não conheceste o meu filho. Foi há muito tempo. Hoje também não me conhecerias se pudesses ver-me...
Quem foi que disse que o tempo apaga a dor?
Quem foi que disse que vai doendo menos, cada vez menos, até que é só uma saudade triste, que não magoa?
Quem foi que disse?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

...

Apetecia-me tanto escrever... E no entanto estou tão cansada que as mãos não me obedecem... nem o pensamento. Trabalhei bem, trabalhei muito... E o powerpoint está quase pronto, do jeito que eu gosto. Claro, completo, quase perfeito. Amanhã acabo-o. Agora preciso de terminar o dia... Tinha saudades de vir aqui. Não sei porquê. Talvez porque sei que aqui me ouves, que aqui me procuras. Sinto-me estranhamente calma. Talvez do cansaço, não sei. Arrumei a mesa onde trabalhava e enquanto empilhava livros e rasgava folhas, sorria... A mesa onde te pedi para me amares está agora pronta e posta para o pequeno almoço. Nada me roubará os sorrisos da memória, nada. Tenho as mãos vazias... deitei fora as pedras, a mágoa e toda a tristeza que carregava. Tinha tantas coisas para te dizer! Ficarão no meu peito, ao lado dos sorrisos... porque eu só guardo as coisas boas... Vou descansar...
Porque a vida recomeça amanhã.

domingo, 10 de janeiro de 2010

No limite

A dor de cabeça não cede. Hoje é o quarto dia. Deito-me e levanto-me com ela, atormenta-me durante todo o dia, parece fazer já parte de mim. Impede-me de pensar. Rouba-me a energia. Não aguento a pressão sobre os olhos, a dor fina, aguda, que me rói a cervical. Dentro de mim, algo parece bater continuamente, como um eco de um tambor longínquo. Gostava de dormir. Gostava de me deitar e não acordar mais.
Que Deus me perdoe.

sábado, 9 de janeiro de 2010


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

É como cegar de repente. O escuro. O frio. O vazio. A dor. O desespero. O mundo parece ter parado de girar, a minha respiração suspensa por um fio. As vozes dos outros chegam-me de longe, como ecos distantes. A sensação estranha de estar a viver um filme onde eu não entro, onde a vida não é a minha... Tu sabes que eu não te perdoo. Nunca te perdoarei. Intimamente, tu sabes que a nossa vida jaz espalhada pelo chão, partida em mil e um pedaços... Tu sabes o que o meu corpo significa para mim. É a única coisa que possuo de verdadeiramente meu, que eu entrego só a quem eu quero, só a quem eu amo. O amor não se pede, não se exige... e no entanto exigiste-o, o meu corpo que eu não te queria dar. Tomaste-o pela força, contra a minha vontade, o meu sentir, a minha ausência de desejo de ti, só porque és maior e mais forte do que eu. E no fim acho que o percebeste, o meu nojo de ti. A minha raiva. Não, não te perdoo...
Esta noite em que não dormi, decidi uma série de coisas. Amanhã quando chegares, não estarei nesta casa, não dormirei aqui. Encontrarás o meu lugar vazio, como o meu coração. E não irei às aulas, preciso do dia para pensar, para estar sozinha. Não sei o que vou fazer, por onde vou andar, sei que vou deixar os miúdos na escola e seguir sem destino até onde o carro me levar... Não quero saber onde. Vou.
Foi difícil, o dia de hoje. Trabalhei oito horas, falei com pessoas, conversei, numa espécie de sonambulismo, como um fantasma, um corpo vazio de alma... Preciso de regressar a mim. O mais rápido possível. Preciso de chão. E de norte.
E não te preocupes, não quero nada de ti. Sossega. Traz todos os papéis que quiseres, eu assino.
O do divórcio também. Especialmente esse, eu assino.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


Obrigada avó.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um amor feliz


Até o mais improvável dos amores um dia é verdade. E deixa a sensação maravilhosa de que já nos conhecíamos há muito tempo, talvez noutras vidas, talvez noutros mundos. Hoje fizemos amor... e eu não sonhei... O meu corpo pertence-te, foi sempre teu, muito antes de eu o compreender. O teu encaixa no meu e eu só consigo perceber que a vida está completa. Que os deuses se apaziguaram, o universo se equilibrou e que tudo está no seu lugar. E as nossas almas, meu improvável amor, já se possuíam muito antes de os corpos se terem encontrado e encaixado num puzzle perfeito.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sempre tu


Parávamos o carro junto ao mar e ali ficávamos, a conversar.
Uma vez, deu-nos para contar anedotas. Não me lembro se foste tu que começaste ou eu, nem isso importa. Contaste uma que recordo bem, sobre um casal que está a assistir a uma procissão (ou seria um desfile?) e no fim ríamos como tolinhos, descontraídos, apenas um par de namorados cheios de mil cumplicidades... Às vezes conseguíamos ser assim.

(Hoje no café ao fim da tarde, alguém contou essa anedota, a tua anedota. E ninguém compreendeu porque razão eu fui a única pessoa que no final não desatou a rir às gargalhadas.)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Infantilidades

Fui o visitante 1800... e isso fez-me sorrir.

A noite mais bela


Naquela noite, a mais bela das noites, havia sossego à hora em que tu chegaste. Eu fui buscar-te ao portão e caminhámos com cuidado na escuridão, de mãos dadas, evitando as pedras soltas que nos denunciariam o caminhar. Naquela noite, o teu corpo estava quente da caminhada longa e apressada que fizeras e trazias contigo o mais belo dos teus sorrisos. Quando nos abraçámos pousaste-o sem o saber, na curva dos meus seios e ali ficou, cravado no coração. Depois despimo-nos com a urgência da paixão e amámo-nos em cada gesto, em cada beijo que lentamente dissolvia a saudade... A tua boca procurou-me todos os recantos entre as coxas que se abriam para ti, beijou-me, a língua saciando a falta de tantos dias, entrando em mim, possuindo-me sem pudor... Naquela noite, a mais bela das noites, bebemo-nos como se fossemos água, e os corpos foram um oásis no deserto das nossas solidões, dos encontros eternamente adiados. Naquela noite, depois do amor, ficou o abraço das peles nuas que se pediam, adiando a despedida doída. E conversámos sussurrando, e sorrimos muito, muitas vezes, as mãos deslizando nos corpos, escorregadias como peixes, partilhando o carinho só possível quando se sabe que nos nossos braços está a pessoa amada. Naquela noite pertencemo-nos.
Recordo-a muitas vezes, a noite mais bela. Tenho medo que o tempo a apague, a roube de mim, lhe esbata os contornos tão nítidos, como se tivesse acontecido ontem. Por isso às vezes o meu corpo relembra-a, para a poder eternizar, essa noite onde fomos tão felizes com o pouco que tínhamos. E não quero perdê-la nunca porque eu fui muito feliz. Porque tu foste feliz.
Hoje apetece-me dizer-te que sem ti, só metade de mim continua a viagem. O corpo, carrego-o comigo... Mas a alma... levaste-a contigo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Vazio

Exausta. Sinto-me exausta. Como se a energia me tivesse abandonado por completo... Às vezes páro para pensar se aguentarei até ao fim este ritmo de trabalho, mas geralmente não o faço. De que adianta pensar? As coisas têm que ser feitas e não vale a pena lamentar-me... foram escolhas minhas. Fará algum sentido, tudo isto? Se pelo menos eu conseguisse dormir... tenho pesadelos, sonhos maus onde geralmente vou numa estrada escura, a alta velocidade, e não encontro o caminho certo... Doutras vezes sonho que estou atrasada, muito atrasada e vou faltar ao trabalho... outras ainda sinto que me afogo, que não consigo respirar. Depois acordo assim, exausta, mas aliviada porque era só um pesadelo. Às vezes tenho a cara molhada de lágrimas... Sinto saudades da serenidade, de me sentir sem stress, de viver sem olhar o relógio, de descansar um pouco no sofá da sala, de ver televisão, de ler um livro só porque sim... Já não sei o que é viver sem lutar contra o tempo há uma eternidade... Luto contra o tempo, contra os meus pensamentos, contra as emoções... Luto contra a saudade. Vou vivendo assim, um dia de cada vez, e os dias são sempre iguais: cheios de trabalho, cheios de stress, e vazios, completamente vazios de mim.

domingo, 15 de novembro de 2009

Tenho mesmo

Tenho só um cigarro e ainda tanto trabalho pela frente... Adio o momento de o fumar porque sei que não conseguirei pensar sem tabaco, tão pouco manter-me acordada. Estou irritada comigo mesma. Pela primeira vez, os maços SOS a que recorro em casos de urgência, não foram repostos. E por saber que não tenho cigarros, a vontade de fumar torna-se ainda mais imperiosa e urgente... É sempre assim, quanto mais quero distanciar-me de um assunto, mais ele regressa e me atormenta, ganha vida própria na minha mente, desobedece-me e inferniza-me. Seguro o cigarro sobrevivente entre os dedos sem o acender, adio o momento em que o vou queimar. E no entanto apetece-me descontroladamente fumá-lo. Já comi, já bebi, não sei mais como iludir a vontade, como enganar o desejo.
Está decidido, vou sair. A casa está em silêncio e talvez consiga escapulir-me sem acordar ninguém. Vou deixar um bilhete escrito e vou à cidade, à bomba de gasolina, comprar tabaco. Vou mesmo. Faço o caminho pela marginal e aproveito para ver o mar. Tenho muitas saudades do mar.
Sinto-me estúpida e dependente. Sinto-me fraca e ridícula. Sinto-me triste.
Merda, tenho que deixar de fumar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Nunca mais


Nunca mais me mandarás embora.
Nunca mais me pedirás que te deixe em paz.
Nunca mais.

domingo, 25 de outubro de 2009

O coração também morre


Habituamo-nos a tudo. Sem o notarmos, habituamo-nos a viver sem tempo, ao equilíbrio no arame, a esta vida na corda bamba, ao trapézio sem rede. Habituamo-nos à indiferença, ao silêncio e ao vazio. Ao cansaço. Habituamo-nos à saudade e a dar murros em ponta de faca que nos cortam o ar e nos deixam sem sangue... Habituamo-nos. E vamos perdendo vida todos os dias, vamos perdendo tempo e momentos, instantes fugazes de alegria mas que eram o respirar do corpo exausto. Habituamo-nos a viver sem água, numa sede eterna que deixa os olhos sem brilho e o coração despedaçado... Habituamo-nos a calar os gestos de amor, as palavras de desejo, a paixão. Deixamos de pedir, de lutar, de sonhar. E até a isso nos habituamos quando um dia percebemos que já nada esperamos, nenhum comboio onde embarcar, nenhum navio onde partir, nenhum horizonte no olhar... No solitário cais de embarque da vida, sentamo-nos numa apatia silenciosa, perdidos os sonhos, vencida a coragem, invisíveis aos olhos do mundo e dos homens. Habituamo-nos. Passamos a ser sombra e escuro, vazio e tristeza... e até a isso nos habituamos. Para podermos sobreviver.