Já me despedi de ti, como sempre faço, todas as noites. Hoje escrevi-te um longo e-mail, ao contrário do que é habitual. Apetecia-me conversar contigo, ou melhor, precisava de conversar contigo... Gosto das nossas conversas, do tempo que gastamos a saber um do outro, dos assuntos triviais e da brincadeira, das gargalhadas, da descompressão que é sempre rever-te no fim da saudade... Falei muito... como sempre. A seguir vou mandar-te uma sms... como sempre. É sempre assim, todas as noites, pelo menos todas as noites em que posso fazê-lo. A única e pequenina diferença é que não tenho carregado na tecla enviar. A única.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Amanhã talvez
Os cães estão inquietos. Agitam-se, correm loucamente até ao portão e regressam ofegantes. Choram. Talvez seja da chuva. Também não gosto deste som da água caindo nas árvores, do vento agitando a madeira, obrigando os troncos a vergarem-se. Tomei o comprimido e aguardo a calma... Queria dormir hoje, um sono sem sonhos, sem insónias, sem angústia. Estou cansada. A igreja gelada, as pessoas a chorar, o descontrole no momento em que a urna desce à terra... Odeio funerais. Lembrei-me de ti, avó, de quando te desceram à terra e me deram a chave da tua urna presa com uma fita de seda negra. Chorei muito, chorei à vontade, hoje era possível deixar cair a dor... Quando regressei sentia-me tão esfarrapada que me apeteceu ouvir uma música, vezes sem conta, até a dor passar. A única música possível. Mas a dor não passou. Entendes-me? Não passou. E agora à noite, parti um copo ao jantar. Chamaram-me desastrada, distraída, ralharam-me... e era só a merda de um copo. Como podia eu explicar que o deixei cair porque alguém, que eu não via, me agarrou a mão, a puxou com força? Como contar que me assustei, que senti medo? Fantasmas não existem, rir-se-iam de mim... Talvez eu esteja a ficar louca...
Amanhã é outro dia. Respiro fundo e espero. Amanhã será talvez melhor.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Recomeçar
Regressar. E recomeçar. Lentamente, um passo a seguir ao outro... e a vida há-de levar-me a algum lugar. Continuar viagem. Sozinha. Partir do nada que ficou e voltar a ter sonhos... Tem que ser possível. Em alguma volta da estrada a dor deixará de se ouvir. Mudar a vida. Mudar de vida. Mesmo que a palavra Amor não se ouça mais. Mesmo que nunca mais consiga dizer Amo-te...
É preciso recomeçar.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Marcas de amor

Hoje enquanto me vestia devagar em frente ao espelho os meus olhos demoraram-se na pisadura do braço, bem evidente na pele tão clara. Uma mancha negra e redonda, a marca perfeita do teu polegar quando me agarraste com força. Na altura achei que o fazias com raiva, ódio até... mas agora penso que talvez fosse só desespero, um desespero incontrolável ao veres que nos perdíamos outra vez... Dói-me quando lhe toco, mas em breve ganhará aquele tom amarelado e desaparecerá finalmente sem deixar vestígios, ajudando-me a esquecer aquela noite escura. Desses momentos fica apenas uma história com uma única culpada e um só ferido... e eu vou deixar as coisas assim... vou esperar apenas que o tempo ao apagar a nódoa negra, leve também com ele todas as outras marcas de amor que me deixaste no coração.
Porque como tu próprio quiseste, entre nós está tudo dito.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
A vida não me apetece
Tento redesenhar a minha vida nesta folha em branco que são os dias que virão. Não consigo encontrar uma nota de cor, um traço seguro que me indique o rumo a seguir... É como uma música que nunca ouvi e não sei tocar, um insustentável silêncio depois da tua voz... Fecho-me em mim, guardando as memórias do que fomos num ninho donde não me apetece sair, longe duma vida que não quero viver. Não sei caminhar sem ti, sem o som dos teus passos nesta estrada solitária e dolorosamente silenciosa... Dentro de mim já não há mais nada, talvez só tristeza e mágoa, vazio e sombras... e a minha dor, encostada ao passado, ainda tão incrivelmente presente.
Tento resenhar a minha vida, colori-la de azul, como o mar e a noite que nos acolheram tantas vezes, as estrelas onde sempre nos sabíamos encontrar... mas a cor não nasce, teimosamente afoga-se no negro que há cá dentro e me encharca a alma. Ando às voltas perdida dentro de mim, tentando achar uma saída... Mas a vida não me apetece.
sábado, 13 de junho de 2009
Tocar a lua...

Fui lá fora há pouco respirar a noite e fiquei emudecida longos minutos a admirar a lua. Vai vê-la também, amor, quando regressares a casa, procura-a por entre os rostos dos prédios altos, atravessa a rua se for preciso, e vai vê-la. Hoje a noite tem estrelas azuis e uma lua branca, enorme, parada no céu negro e quase possível de alcançar... E nesta noite calma, eu sinto que o nosso amor é como a lua, quase possível de guardar para sempre. Foi um dia tão lindo que passámos juntos! Um dia cheio de doçura, de palavras, um dia em que conversámos olhos nos olhos, de mãos dadas, e nos beijámos na boca à mesa de um café... Passeámos abraçados na rua cheia de vento e por breves momentos não fomos mais do que duas pessoas que se amam muito, invisíveis ao resto do mundo. Hoje não tive medo dos homens, dos olhares alheios que nos podem separar, e não precisei de te falar em surdina porque ninguém à nossa volta se preocupava com o que dizíamos... Hoje fui apenas a tua namorada, feliz por te amar aos olhos do mundo, a céu aberto, e afinal, descobri que como todas as pessoas que se amam, preciso de pedir muito pouco aos deuses para alcançar a felicidade.
Só preciso mesmo, de vez em quando, de conseguir tocar a lua...
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Um sorriso de sol
Hoje fui procurá-la entre as páginas do livro onde a tinha escondido, e fiquei durante muito tempo a olhá-la, a gravar os detalhes, a descobrir pormenores que me ensinassem mais sobre ti. Deste-ma ontem, depois de termos feito amor e disseste que adoravas aquela foto. Tu tens razão... a pessoa que te fotografou foi feliz na escolha do momento. O teu rosto, que ocupa o centro da imagem, irradia uma luz lindíssima, um brilho feliz, como poucas vezes as fotos conseguem ilustrar. Passei devagar os dedos na pele do teu rosto, na barba macia, nos cabelos brilhantes e sedosos... e quase consegui evocar o perfume da tua pele... Demorei a minha atenção nos teus olhos... são os teus olhos sem sombras que ali estão, que traduzem alegria quando te sentes sereno. Estás muito bonito. A t-shirt preta contrasta com o tom moreno do teu rosto, destacando-o de imediato e evidenciando os teus dentes bonitos e certinhos. És a imagem de um homem feliz. E eu tento imaginar a quem sorririas, em que pensarias naquele momento, quem fazia bater mais forte o teu coração, no momento em que a máquina gravou para sempre o teu sorriso de sol... Ainda não nos conhecíamos, não podias sequer imaginar que os nossos destinos se cruzariam deste modo, enlaçados em nós tão apertados, tão impossíveis de desatar... Sabes... esta foto tem para mim o valor de uma jóia rara e cara... Quando ma deste ontem, estávamos felizes e tu sorrias quando abriste as portas do teu passado e me convidaste a entrar, quando quiseste que eu soubesse como era um bocadinho de ti antes de eu existir, há tantos anos atrás... E isso é um presente maravilhoso. Oferecermos o nosso passado a alguém que amamos é uma atitude rara e generosa e encheste-me de uma felicidade secreta que não consegui dizer-te... Por isso digo-te agora que o meu coração e os meus olhos tatuaram o teu sorriso cá dentro e posso carregá-lo sempre comigo, faz parte das minhas memórias também. Guardo o teu sorriso que eu amo e que às vezes te faço perder, que destruo com palavras, com gestos, com atitudes ou com silêncios, o teu sorriso naquele dia há tantos anos atrás quando sem saberes, caminhavas já em direcção a mim, empurrado pelos deuses ou por qualquer outra força superior que junta dois seres humanos num amor único para todo o sempre...
sábado, 6 de junho de 2009
Os sonhos também morrem

Hoje morri às quatro da tarde e ninguém reparou. Dos que me rodeavam, dos que me falavam, ninguém viu, ninguém notou que eu já não existia... Talvez não haja dor maior do que sentir que não somos importantes para ninguém, que não ser preciso limpar disfarçadamente uma lágrima teimosa, porque ninguém a vê cair cá dentro, no coração. Tu terias sabido, se me tivesses visto, que eu já não ando por aqui... voei para longe, à procura de um tempo e de um espaço onde a dor não me alcance. Tu conheces-me bem, lerias nos meus olhos e saberias que eu morri hoje.
Às quatro da tarde.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
A frio

Finalmente o silêncio. Apenas os sons da noite, tranquilos e rotineiros... Hoje termina agora, muitas horas que eu quero apagar, esquecer, eliminar do calendário dos meus dias. Queria poder removê-lo cirurgicamente, com bisturi e sem anestesia. A frio. A dor acompanhou-me em muitos momentos e este dia que termina sabe ao sal das minhas lágrimas, sabe a solidão, a cansaço e a frustração. Sabe a derrota. Hoje a cabeça dói-me e o coração descompassado dentro do peito, sufoca-me, obriga-me a encher o peito de ar... Porque hoje o ar que inspiro não me chega, como se estivesse a afogar-me... e talvez esteja. Os ombros curvam-se numa dor fina e incómoda, que alastra a todos os ossos do meu corpo. Mas sabe-me bem esta serenidade agora, este murmurar suave do computador, e lentamente o desespero do dia de hoje esvai-se e deixa entrar a paz... As estrelas estão azuis e tu estás aqui comigo.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
O último voo

Um dia, quando já ninguém precisar de mim, vou-me embora. Quando todos tiverem seguido os seus caminhos, vou sair desta casa onde ninguém me vê, ninguém me abraça, ninguém repara em mim ou nos meus passos. Nesse momento, abrirei as asas e lançar-me-ei no último voo... Começarei tudo de novo, longe daqui. Não levarei nada deste lugar, apenas os meus objectos pessoais e todos os meus livros, que encherão as estantes novas que cobrirão as paredes de um aposento iluminado. Quero começar tudo de novo, comprar todos os objectos de que precisarei para viver e serão objectos sem história, objectos nos quais escreverei a minha nova vida, a história do meu último voo. Um dia, vou procurar um apartamento à beira-mar, bastante alto, talvez num décimo andar (eu gosto do número dez), para que possa sem barreiras encher os olhos de azul. Vou decorá-lo em tons de branco, preto e vermelho, um vermelho quente, cor de cereja, cor de vida... Terei apenas o estritamente necessário, num estilo minimalista que me conforta e me liberta para as coisas que sinto prazer em fazer. Os móveis de linhas despojadas e lisas, guardarão apenas o essencial... e a minha nova casa será bonita, confortável e acolhedora. Aí serei feliz, longe das multidões, naquela solidão voluntária que gosto de sentir.
Se tu ainda estiveres comigo, se ainda me quiseres, chegarás sempre que queiras, com o teu sorriso de sol e haverá nos armários as tuas bolachas preferidas, as tuas bebidas favoritas, e um roupão azul pendurado ao lado do meu. Ficas lindo de azul... Na casa de banho, terás a tua escova de dentes, o teu gel de banho, o perfume que gostas de usar. Cozinharei para ti e conversaremos, abraçados no sofá onde me massajarás as costas e os ombros, riremos de tudo e de nada como tantas vezes fazemos hoje. Depois, podes ficar abraçado a mim, na noite silenciosa, acordado ou dormitando, numa doce preguiça e naquele cansaço bom que se sente depois do amor. De vez em quando, talvez possas ficar e acordar comigo, tomaremos banho juntos e obrigar-te-ei a engolir o pequeno almoço que não faz parte dos teus rituais. Quando saíres a meio da noite, beijar-me-ás os cabelos, talvez me afagues o rosto e irás sereno, saciado de mim e do nosso amor, para voltares sempre que queiras, sem avisar. E eu estarei sempre à tua espera, nessa casa que já construí e decorei, e que terá uma varanda enorme onde eu possa perder os olhos no azul do céu e do mar e respirar fundo o aroma a maresia... Será uma casa simples, porque eu preciso de pouco para ser feliz... E ninguém saberá que no teu pesado molho de chaves, disfarçada e escondida entre as outras, haverá uma que abrirá as portas de um décimo andar virado para o mar, onde eu serei feliz e estarei sempre à tua espera.
sábado, 9 de maio de 2009
Café com desejo

Enrola-se o pensamento à volta do teu nome numa teimosia inevitável e circular. É como se todas as coisas se iniciassem e terminassem em ti... Recordo o nosso encontro hoje de manhã, a alegria de te ter tão perto, à mesa do café que engoli distraídamente, perdida nos detalhes do teu rosto. A barba mais crescida, os olhos cheios de luz apesar do cansaço das noites tão longas, os lábios ligeiramente gretados, abertos num sorriso irresistível... E depois apoiaste o rosto na mão, e olhaste-me com desejo e ao mesmo tempo com todo o carinho do mundo, desafiando-me o abraço, o beijo na boca cheia de saudade... Eu olhei em volta e mudei de posição, apertei os meus braços contra o corpo para que eles não me desobedecessem, para que não se transformassem em asas e sobre a mesa te fossem apertar num abraço infinito, enquanto a boca pousada na curva doce do teu ombro, saboreando-te a pele, bebendo-te o perfume, diria apenas num sussurro que só tu ouvisses: "Quero-te tanto..."
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